Olá a todos! Tenho o prazer de anunciar que o texto a seguir é uma colaboração da mestranda em Geografia, Joildes Brasil, que vai nos ajudar aqui no blog com seus textos sobre a ciência geográfica.

Mesmo sendo uma ciência cultivada ao longo da História da humanidade, com grandes nomes que deram subsídios para o seu progresso científico, a Geografia é negligenciada e tomada por muitos como um saber sem utilidade, que nada mais é que uma disciplina escolar.

A própria ambigüidade que existe na palavra geografia (do grego geo = Terra e grafia = descrição) permite que seu objetivo se confunda com o de outras ciências como a climatologia, geologia, sociologia, demografia, etc. De fato, como disse Yves Lacoste (1993) “a geografia designa tudo ao mesmo tempo”. E é esse caráter multidisciplinar que a justifica como uma ciência da sociedade/natureza. Mas, até que ponto esse é um aspecto positivo? Será que essa amplitude não atrapalha na hora de ser específica? E como fica o papel do geógrafo nisso tudo?

As revoluções do pensamento humano repercutiram em novas teorias, técnicas aperfeiçoadas e o surgimento de novas profissões. No tocante a geografia, a ciência cartográfica é algo a comentar. A arte de fazer mapas faz parte da profissão do geógrafo a milênios, com os chineses e gregos. Só agora, no final do século XIX que ouve essa distinção entre geógrafo e cartógrafo. Será que os geógrafos têm sido incompetentes ao ponto de haver necessidade de uma nova ciência para fazer o serviço que eles deveriam saber?

Para clarear as idéias é preciso voltar um pouco no tempo, onde a geografia era representada por homens de ação (oficiais do exército) e de muita influência, sendo tomada como uma arma de guerra por muitos países europeus, principalmente no século XIX, que buscavam expandir cada vez mais os seus territórios. Conscientes da importância da ciência geográfica viram à necessidade de expandir o ensino da geografia, antes restrito as autoridades, para os liceus e colégios de ensino fundamental. O objetivo era fazer com que a população conhecesse o seu território e a história do seu país, e assim fizesse surgir um sentimento de nacionalismo.

Doravante, prolifera-se o número de geógrafos universitários, e junto a eles a pilha de trabalhos acadêmicos. Mesmo assim, era ainda um número pequeno o de profissionais de geografia para suprir a demanda, por isso muitas das aulas eram ministradas por profissionais de outras áreas, principalmente de História. A partir daí, aos poucos a geografia vai perdendo o seu caráter fundamental como uma ciência estratégica, tornando-se uma disciplina enfadonha que se resumia a decorar nome rios, países, desertos etc. Essa é a chamada, por Yves Lacoste (1993) de “Geografia dos Professores”, despreocupada em mostrar o caráter prático de se conhecer o espaço e poder agir nele de forma inteligente.

Nesse momento, os geógrafos universitários têm como prioridade seus trabalhos de pesquisa para monografias, mestrados e doutorados. Esses trabalhos foram muito importantes para a evolução do pensamento geográfico, no entanto muitas dessas pesquisas não tinham utilidade prática, ficavam apenas no papel. De acordo com Yves Lacoste:

“É então que os geógrafos começam a perder consciência da sua função social e daquilo que havia sido, durante séculos, a sua verdadeira razão de ser: pensar o espaço para que ali se possa agir mais eficientemente”. (LACOSTE, 1993)

A divisão do trabalho de pesquisa, a dicotomia entre geógrafos humanos e físicos e os muitos trabalhos acadêmicos “desinteressados”, fez com que a comunidade científica condenasse o papel do geógrafo, até porque o pouco que eles se lembram das chatas aulas de geografia não passava de “decoreba”, concluindo a partir daí que esse papel poderia ser feito por um sociólogo, ambientalista ou cartógrafo.

Vale apena lembrar que o mapa desde sempre foi/é a linguagem geográfica. Hoje, com o auxílio das ferramentas das geotecnologias (sensores remotos, fotos de satélites, programas de SIGs), as cartas são feitas de forma automática e com extrema precisão. Mas, de acordo com Ruy Moreira (2007) “o problema é que nem a fotografia aérea, nem os modelos quantitativos e menos ainda o programa de geoprocessamento pensam e interpretam o mundo por si mesmos.”

Esse trabalho de interpretar os fenômenos espaciais e as suas causas faz parte da tarefa de ser geógrafo. Os avanços tecnológicos deram suporte para uma melhor apreensão desses fenômenos, que na forma digital apresentam maior exatidão e confiabilidade. Cabe ao geógrafo fazer uso dessas técnicas e assim retomar o seu papel de agente social, indo além da epistemologia da palavra geografia, e transformar de forma consciente o espaço geográfico.

REFERÊNCIAS:

LACOSTE, Yves. A Geografia – Isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. 3ª edição. Campinas: Papirus, 1993. 263 p

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MOREIRA, R. Pensar e ser em Geografia: ensaios de história, epistemologia e ontologia do espaço geográfico. São Paulo: Contexto, 2007.

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Joildes Brasil

Mestranda em Geografia pela 
Universidade Federal de Goiás (UFG)
Instituto de Estudos Socioambientais – IESA
Áreas de interesse: Pedologia, Geomorfologia e Geotecnologias. 
Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4431796Z2

Murilo Cardoso

Murilo Cardoso é Geógrafo e Analista em Geoprocessamento. Considerado um dos 3 melhores profissionais do ano de 2017 na área de Geotecnologias. Mais de 50 artigos publicados na área. Escreve sobre o assunto desde 2010. Diretor da empresa de cursos em geotecnologias que mais cresce no Brasil, a AcadGEO e Analista em Geoprocessamento em uma das empresas de engenharia ambiental mais tradicionais do país, a DBO Engenharia. Natural de Goiânia. Tiete de Douglas Adams, Steve Jobs e Albert Camus

Georghinton Diêgo Feitosa · às

pensou que eu não fosse adimirar seu pensamento notável, né? bom texto… continue me enchendo de orgulho…rsrs

    Murilo Cardoso · às

    Todos os louros deste texto são da Joildes Brasil =D
    Obrigado por acompanhar o blog.
    Abraços!

    Joi BRASIL · às

    Obrigada meu caro jovem mancebo perdido em terras portuguesas…. kk Esse texto é reflexo das nossas aulas de História do Pensamento Geográfico, lembra?

Sarah Parreira · às

O primeiro semestre cursado em Geografia, fora muito confuso exatamente por isso. A análise de que a geografia é uma ciência de síntese. Uma ciência que abrange todas as outras. Talvez uma ciência que não tenha campo definido. “Pula de galho em galho” . Esse texto mostra um pouco disso. Sobre a falta de campo, conhecimento verdadeiro da geografia. Muitas vezes somos criticados, as pessoas pensam que você como geografo é apenas um atlas ambulante. Mas as coisas não são assim. Temos matérias, temas, trabalhos em diversas áreas. A geografia é muito dinâmica. Avalia problemas fisicos, materiais e interdisciplinares. Mas sempre será algo a questionar dentro do campo profissional !

    Murilo Cardoso · às

    Sarah, obrigado por seu comentário tão pertinente!
    Sabe, esse blog foi criado justamente para isso, para tentar ajudar de alguma forma os Geógrafos e Futuros Geógrafos. Quando entramos na faculdade de Geografia cheio de anseios é difícil se direcionar…
    Grande abraço. E, mais uma vez, obrigado pelo comentário incrível!

ensinomedio3 · às

talvez seja essa a dificuldade atual prinicipalmente nas escolas públicas dar realmente um sentido prático a temas geográficos…..

Adriano · às

Olá! Muito boa a iniciativa!

Quero deixar dois questionamentos ao (s) autor (es) para iniciarmos um diálogo:

1. Pq o texto é intitulado “Uma Geografia sem Geógrafos”?
2. Como que se organiza a “Divisão de Trabalho de pesquisa” de que trata o texto?

Um grande Abraço

Adriano

    Murilo Cardoso · às

    Caro, Adriano. Muito legal ter questionamentos como esse! Enriquecem muito o conteúdo do blog. Vou repassar a sua pergunta para a autora desse post e assim que ela responder eu coloco a resposta dela aqui.

    Abraços!

    Joi Brasil · às

    Olá Adriano… mil desculpas pela demora em responder. Meu acesso a internet está meio limitado essas últimas semanas. Tentarei responder sua pergunta, no tempo q me resta na lan house (5 min…kk)…
    Bom…. sobre o título do texto…
    Na minha opnião, baseado no que eu tenho visto em algumas universidades que tive oportunidade de
    visitar, entre os congressos, eventos e simpósios de Geografia, e de acordo com própria midia (revistas e internet), tenho visto que muitos trabalhos que poderiam serem feitos por gégrafos, tem na verdade, sido realizados por uma malha de novos profissionais. Falo especificamente na área das geotecnologias, planejamento, zoneamento, entre outras que somos capacitados a fazer, ou pelo menos, deveriamos ser! Nesse sentido, a Geografia (como uma ciência que visa estudar o espaço gegráfico para melhor utilizá-lo) tem sido exercidas por outros profissinais, por isso: UMA GEOGRAFIA SEM GEÓGRAFOS. Minha idéia com esse título, é “cutuar” os geógrafos a reagirem a fazerem o que lhes competi. Mas, infelismente, hoje o próprio profissinal de geografia sai da Universidade sem ter em mente qual seu papel na sociedade.

    Bom… não deu pra discutir o segundo tópico q vc mencinou, mas em breve farei isso.
    Obrigada pelas observações.

Carlos · às

O problema é que no Brasil (talvez por influência francesa) a geografia (com o G minusculo propositalmente) é “feita” para dar aula (ser professor(a) de geografia).
Em praticamente nenhuma faculdade/universidade brasileira se forma profissionais em geografia … os que ousam ser (CREA) é pq “correram atras do prejuízo”.
Em quantos cursos de geografia da terra brasilis exite em sua grade as disciplinas:
Calculo (1,2,3 …)?
Química básica?
Química ambiental?
Física?
Botânica? (as aulas de Biogeografia geralmente são uma piada [de mal gosto]).

Certa vez um professor que na época tinha terminado seu mestrado em Engenharia Ambiental e estava começando seu doutorado (na mesa área) me disse que qdo entrou no mestrado (o único geógrafo) seu orientador e os demais colegas achavam que ele sabia tudo sobre Geoprocessamento, Topografia, Hidrografia e outras áreas que nós só estudamos teorias e olhe lá … sem falar que 90% dos geógrafos não sabem fazer um simples calculo.

Fica aqui me protesto mesmo sabendo que nada vai mudar (infelizmente).

Abraço

    Murilo Cardoso · às

    Caro, Carlos. Agradeço o seu comentário e devo dizer que compartilho 100% dessa sua, digamos assim, inconformidade. Sou super a favor dessas disciplinas que você citou, tirando química, mas por questão de afinidade, entretanto eu as encararia rs*. Como você deve ter percebido, esse blog se dispõe a ajudar os alunos, principalmente inciantes, a se aproximar um pouco mais também das Geotecnologias com tutoriais contendo o ABC das Geotecnologias e tudo mais. Infelizmente, não podemos negar a dificuldade de muitos alunos da Geografia com exatas. Já fui monitor de cartografia e posso lhe dizer que é grande a dificuldade de se fazer uma simples regra de três por parte de alguns alunos. Espero que você continue colaborando com comentários como esses. E não desista de mudar as coisas rs*

    Grande abraço!

    Joi Brasil · às

    Faço minha as suas palavras Carlos. Parece que o pessoal de geografia tem medo de número. Falo isso por experiência própria. No inicio, queria fazer o curso de Gelogaia, mas os cálculos não deixaram. Então optei pela ciência vizinha, e não me arrempendo em nenhum momento. Mas, ao decorrer do curso vi a necessidade e a importância de saber utilizar os números (geoestatística principalmente) ao nosso favor e assim nos ajudar a interpretar o espaço, ou seja, transformar o quantitativo em qualitativo.
    Mas, como vc mesmo disse, a Geografia ainda vigente é a dos Professores! Já fui tachada de “teorética quantitativa” devido essa posição, mas eu vejo que era nessa época que a Geografia era realmente vista com a importância que llhe compete. Não querendo menosprezar o professor, mas a atuação do geógrafo está bem além do conteúto programático discutido em sala de aula. Mas, como vc já falou, mais da metado ds geógrafos não são competentes para ir afundo em algumas discussão, fazendo jus a uma frase que chega me arrepia: A Geografia é um imenso mar raso…

Jonas Henrique · às

Murilo, realmente eu pude viver com um pouco dessa realidade. Acabei de sair de uma licenciatura e, já nos primeiros dias de bacharelado, os professores apontaram que os geógrafos foram perdendo espaço para outros profissionais justamente por deixar um vácuo (sisleg, projetos em órgãos públicos e privados, AIA,…) onde agrônomos, técnicos ambientais, o pessoal do T.I. acabaram por ocupar nosso espaço. No fim das contas quisemos abraçar o mundo e não damos conta nem de cuidar do nosso quintal.
Um texto sensacional! Abraço!

    Murilo Cardoso · às

    Olá, Jonas! Antes de mais nada, o texto foi escrito integralmente pela Joildes Brasil e preciso dar todos os créditos de seus elogios ao texto para ela =D Quanto a sua/nossa angústia podemos perceber que não só nós, como a maioria dos recém formados passar por esse dilema de falta de identidade. Entretanto, o livro do Ruy Moreira, Pensar e Ser em Geografia é excelente para entendermos nossa função. Depois que o li realmente abri “as portas da percepção”. Grande abraço, companheiro blogueiro! o/

      Jonas Henrique · às

      Parabéns então à professora e pesquisadora Joildes Brasil. Obrigado pela dica do livro. Vou ver se consigo encontrar um tempo pra conferir ele durante essa semana. Abraço!

adriana · às

parabéns pelo blog primo..
orgulhão vendo vc asim… bju

    Murilo Cardoso · às

    rs* Obrigado prima. Volte sempre =D

[Geografia] O que o censo 2010 tem pra contar…em 2012? | Murilo Cardoso · às

[…] Hoje vamos falar de números. Sim, Geógrafos…NÚMEROS! Mais precisamente do Censo Demográfico 2010. Antes de mais nada, gostaria de expressar aqui uma grande incógnita que assola meus pensamentos em relação ao censo. Uma questão técnica mesmo. Sendo o censo feito, e tão elogiado pelo governo, todo de forma digital, porque demoramos tanto para ter os resultados? O censo, realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), vai muito além de contar quantos brasileiros (e estrangeiros) existem na totalidade, ou o mais próximo possível disso, no território brasileiro. E só por curiosidade, segundo o Censo 2010, somos 190.755.799! Entretanto, a publicação oferece ainda uma série de outras informações sobre as tendências da população no País; dados populacionais por sexo e faixas etárias; aspectos da população urbana e rural; número médio de residentes por domicílio; ocupação de residências privadas, entre outras informações. Vamos analisar alguns desses resultados. Afinal, somos Geógrafos e é essa a nossa função (LEIA + SOBRE ISSO AQUI) […]

O que faz um Geógrafo? « Blog pessoal · às

[…] ocupada por esse tipo de profissional. Como bem colocou a pesquisadora Joildes Brasil existe “uma Geografia sem Geógrafos”, pois muitas das coisas que os geógrafos poderiam estar fazendo amparados pela legislação, […]

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